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Eventos 01 Jun a 26 Jul 2020 Vieira da Silva. Um olhar singular Casa-Museu Teixeira Lopes/Galerias Diogo de Macedo
Vieira da Silva. Um olhar singular                                                    
Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo     

As Galerias Diogo de Macedo vão finalmente reabrir as suas portas, permitindo ao público apreciar, numa visita segura, a obra desta artista singular e ficar a conhecer alguns aspetos da sua vida que tanto influenciaram o seu olhar sobre o mundo.

"Vieira da Silva. Um olhar singular" reúne um conjunto de 64 criações de Maria Helena Vieira da Silva (Lisboa, 13/06/1908 - Paris, 06/03/1992) selecionadas pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, a partir de uma visão global da sua obra, para demonstrar a importância da artista no contexto da criação contemporânea do século XX.

Aberta ao público no dia 8 de março de 2020, a exposição "Vieira da Silva. Um olhar singular" encerrou as portas poucos dias depois, por força do confinamento Covid-19. Agora, por acordo com a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, o período da exposição prolonga-se até 26 de julho de 2020.

"Vieira da Silva. Um olhar singular” foi organizada pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, contando com a curadoria da sua Diretora, Marina Bairrão Ruivo para, a partir de uma visão global da obra da artista, demonstrar ao visitante a sua importância no contexto da criação contemporânea do século XX.

A exposição inclui esboços, estudos anatómicos e pinturas produzidos entre 1926 e 1986, procurando destacar o "olhar” singular da pintora, revelando os múltiplos caminhos da sua pesquisa, em busca do enigma do espaço.
"Vieira da Silva. Um olhar singular” conta ainda com um núcleo biográfico documental.

A exposição pode ser visitada de 1 de junho a 26 de julho 2020, de segunda-feira a domingo, das 09h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30. Entrada gratuita.

Visita Segura - Apelamos à compreensão de todos para o cumprimento das regras de segurança | Covid-19, nomeadamente o uso de máscara e a desinfeção ou lavagem regular das mãos, o respeito pela lotação de 5 pessoas, por um período máximo de 20 minutos por visita. Lembramos a importância de manter uma distância nunca inferior a dois metros em relação aos outros visitantes, obedecendo ao percurso devidamente assinalado. 



Maria Helena Vieira da Silva – um olhar singular 

A produção de Vieira da Silva ilustra um percurso estético notável, intenso e actual, e confirma a excepcional dimensão da artista no panorama internacional da arte contemporânea. Através de um conjunto de obras da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, procuramos revelar os múltiplos caminhos da pintora Maria Helena Vieira da Silva e a sua constante e singular procura do enigma do espaço. 
Quando se aborda a vida e obra de Vieira da Silva, surge um debate de pertenças continuamente retomado. A linguagem de Vieira da Silva tem uma matriz portuguesa originária do seu país natal que convive com a modernidade e a multiculturalidade do país que elegeu para viver, a França. A sua pintura é um testemunho da inteligente associação de um passado - em que Lisboa permaneceu um referente cultural – a um presente de renovação e modernidade, simbolizado por Paris. As relações afectivas, temáticas e formais, com a cultura portuguesa situam-se para lá da aprendizagem de juventude, pouco relevante. As raízes portuguesas e as suas memórias, a luz de Lisboa, os labirintos, os azulejos e as calçadas, são recorrentemente evocados e expressos em função de valores modernos e actuais. Trata-se de uma original reelaboração de dados marcantes de uma identidade que possibilitou visibilidade e projecção, a nível internacional, da cultura portuguesa. Se a vida cedo a levou a viajar e a viver fora do seu país e a sua obra fez dela uma "cidadã do mundo”, a sua identidade é o seu fio condutor, a sua referência e matriz sensível. E se foi em França que se afirmou como pintora reconhecida internacionalmente, foi em Lisboa que Vieira da Silva desejou deixar a sua obra e o seu espólio documental, hoje à guarda da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. As suas obras têm um significado próprio e universal, para lá de fronteiras geográficas, de identidade ou de pertença.
Maria Helena Vieira da Silva nasceu em 1908, em Lisboa, onde cresceu rodeada de adultos que estimularam o seu interesse pela pintura, pela leitura e pela música. A sua infância foi marcada por uma solidão que contribuiu para o desenvolvimento de uma certa introspecção; o seu mundo interior foi recurso fértil e confronto com o mundo exterior na abordagem da pintura. A sua formação, feita em casa, por professores particulares, paralelamente à música, à pintura, ao desenho e à modelagem, não a satisfaz. Em 1927 frequentou as aulas de Anatomia ministradas aos alunos de Belas Artes na Faculdade de Medicina, mas depressa se sentiu insatisfeita num país política e culturalmente pouco estimulante e parte para Paris em 1928 para poder progredir nas suas pesquisas. Ávida de aprendizagem, Vieira da Silva deslumbrou-se com a descoberta da cidade, das galerias e dos museus e frequentou várias academias. Foi uma fase de intensa descoberta e experimentação. Desde logo, numa fase de aprendizagem, Vieira da Silva distanciou-se, intuitivamente, de qualquer movimento, seguindo por vias inexploradas. 
Foi, aliás, numa Academia de pintura que conheceu o pintor húngaro Arpad Szenes (1898-1985) que veio a ser o seu companheiro de vida e de obra, com quem casou em 1930 , iniciando uma vida sem filhos, dedicada à pintura. Esta união foi o espelho de uma época onde a mistura de várias nacionalidades é comum. Ambos optaram por deixar o seu país de origem para viverem num ambiente cosmopolita, despreocupado, de criação e liberdade, rodeados de amigos, na sua maioria estrangeiros. Mais atormentada e complexa do que Arpad Szenes, Vieira da Silva encontrou nele protecção, apoio e encorajamento, seguindo a sua via muito particular - mas atenta ao seu ensinamento -  na procura de uma espacialidade plástica própria. 
As interrogações de Vieira da Silva centravam-se no problema do espaço, uma constante ao longo de toda a sua produção. Os trabalhos iniciais já antecipavam pinturas posteriores, onde estruturas cada vez mais complexas traduziam o intenso desejo de compreensão do espaço e deixavam adivinhar múltiplas contribuições para a criação de um novo conceito espacial. Desde logo se associaram conceitos arquitectónicos à sua pintura (construções, planos, eixos, perspectivas). As estruturas espaciais eleitas, a grelha/grade e a espiral, permitiam-lhe compartimentar o espaço e o contorno reforçava a arquitectura das composições em locais fechados, quase sempre.
Para além das pesquisas de ordem estrutural, Vieira da Silva interessou-se, nos anos que precedem a Segunda Guerra, pela perspectiva, desenvolvendo construções encenadas que sugeriam estranhos espaços onde a perspectiva era reinventada, desmultiplicada. Foi também nesta altura que surgiram os tabuleiros de xadrez e o uso da quadrícula e do losango foi introduzido como módulo. A fragmentação dos azulejos portugueses, reinventados na sua memória, esteve na origem dessa modulação. Aliás, Lisboa foi um motor metaforizante na sua criação, decifrável na estrutura rítmica da sua pintura. Essa fragmentação do espaço revelou-se noutro tema de eleição, os jogos de cartas, onde o dinamismo da cor perturbava o rigor das estruturas num efeito desconcertante. Este tema permitiu-lhe, formalmente, reatar com uma certa figuração sem renunciar às pesquisas de ordem puramente plástica.
Em 1931 o casal Szenes passou, pela primeira vez uma temporada em Portugal, onde foram regulares, até 1939, as estadias na sua casa lisboeta do Alto de São Francisco. Em Lisboa participou em vários acontecimentos artísticos marcantes dos anos de 1930. Só neste período, se pode, historicamente, falar de participação dinâmica na criação artística portuguesa. Em 1930 expôs no I Salão dos Independentes, na Sociedade Nacional de Belas Artes, iniciando uma participação simbólica na arte portuguesa que pontuará a década, ao lado de todos os modernistas empenhados na renovação da mentalidade artística nacional
Em Setembro de 1939 o casal refugiou-se em Lisboa fugindo à ameaça de invasão de Paris pelas tropas alemãs e à perseguição dos judeus, já que Arpad era de origem judia. O casal pensou ficar em Portugal e Vieira alimentava a esperança de reaver a nacionalidade portuguesa perdida aquando do seu casamento e esperava que esta fosse também atribuída ao marido. Com esse intuito, casaram-se pela Igreja  depois de Arpad se ter baptizado, convertendo-se assim ao catolicismo. No entanto, este casamento religioso não foi averbado na certidão de nascimento de Maria Helena, tal como o casamento civil de 1930  e não foram encontrados registos do pedido de nacionalidade em 1939 ou 1940 . Foi registado sim, o desejado visto solicitado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros  que lhes permitiria, enquanto estrangeiros, permanecer em Lisboa e que lhes foi negado.
Apesar de ter exposto várias vezes em Portugal nos anos 30, Vieira da Silva não foi convidada para as exposições Internacionais (Paris 1931 e 1937, Genebra 1935, Nova Iorque e São Francisco, 1939) e foi excluída dos prémios SPN e da Exposição do Mundo Português. A maioria dos artistas em Portugal adaptava-se à estética do regime, seu principal encomendador. Vieira e Arpad, estando em Paris por opção, não precisavam de integrar a estética vigente da Política do Espírito do Estado Novo, o que levou a uma inevitável exclusão. 
O desfasamento artístico e a situação de Arpad fizeram com que o casal deixasse o país. A guerra que se aproximava, inspirou-lhe o desenho de quadrículas que aprisionam figuras e obrigou Vieira da Silva e o Arpad Szenes a um exílio forçado no Brasil, entre 1940 e 1947. A obra deste período, particularmente doloroso, reflecte as inquietações de Vieira da Silva: a dor da guerra, o absurdo da condição humana, o desenraizamento e a saudade. O recurso à imaginação teve um papel fundamental para suportar o isolamento e diluir as angústias. Retratos, paisagens, naturezas-mortas e jogos intercalam temas de reflexão sobre o drama que se vive na Europa. Para além da música e da leitura, os jogos de xadrez e de cartas ajudam Vieira da Silva a passar o tempo e o isolamento, e são temas recorrentes na sua pintura deste período, metáforas da própria vida e do conflito mundial.
O período brasileiro de Maria Helena Vieira da Silva e a importância no seu percurso têm vindo a ser, recentemente, elucidados por críticos e historiadores . A originalidade e qualidade das soluções plásticas e temáticas encontradas para dar continuidade à sua investigação, neste período, foram demonstradas , assim como os laços estabelecidos entre a pintora e o seu marido e a modernidade brasileira, as relações entre certa produção contemporânea do Brasil e o legado modernista de Vieira da Silva e de Szenes . No Brasil, onde sempre se sentiu exilada e estrangeira, as raízes portuguesas de Vieira da Silva manifestaram-se de forma fortíssima. Vieira da Silva soube transformar o exílio em encontros, amizades: "Foram sete anos de poetas… Foram eles os nossos amigos e os nossos protectores” . Em 1947, Vieira da Silva parte do Brasil para o seu destino parisiense e internacional. 
O regresso a Paris, em 1947, foi caracterizado pelo desaparecimento da tendência descritiva anterior e pelo prosseguimento de pesquisas plásticas centradas na abstracção. A sua pintura reflectia uma certa libertação, mas também as marcas do exílio e a guerra. O espaço continuou a ser o enigma por decifrar, a sua reflexão manteve-se centrada na exploração exaustiva da representação pictórica da espacialidade, que abordava transfigurando-a em múltiplas perspectivas, desfragmentando o espaço. Os espaços interiores e fechados foram reinventados, a perspectiva também, com a multiplicação dos pontos de vista. Esta multiplicidade de direcções provocou uma descontinuidade do espaço ou mesmo uma vertiginosa desconstrução. As construções sucediam-se, encadeavam-se e remetiam para outros espaços, invisíveis e exteriores. Os motivos tornaram-se apenas pintura e composição, a perspectiva - que se iria tornando mais rara – serviu-lhe também para abordar espaços exteriores que permitiam diferentes abordagens à espacialidade e a exploração de outros valores da pintura. A sua concepção do espaço mudou, sem ruptura. Muitas vezes representou um espaço indefinível e ambíguo que tanto poderia ser um interior como um exterior. 
Os temas urbanos foram introduzidos e foram constantes as referências à paisagem urbana, à cidade natal, de eleição, de exílio, de viagens, imaginária e mítica, em que as estruturas da urbe encontravam afinidades íntimas com as suas preocupações de ordem plástica. A relação do espaço real com o espaço da pintura é uma constante nas suas experiências. Vieira da Silva caracterizou-se pelas investigações múltiplas, explorando sempre uma direcção e o seu antípoda, nunca indo por um sentido único, seja em relação à cor, à composição ou à técnica. Numa concepção de espaços mais abertos, delineiam-se espaços no interior de espaços, numa construção labiríntica. A pluralidade e a coexistência de espaços geraram uma indefinição ou mesmo uma indecisão, relativamente ao percurso e à saída, própria do labirinto – enigma do espaço. Nenhuma experiência teve, para ela, um sentido único e, assumindo uma postura à margem das práticas artísticas do seu tempo, a sua obra foi sempre considerada de grande originalidade. 
No final dos anos de 1950, o trabalho de Vieira da Silva, que já tinha atingido uma maturidade conceptual, foi reconhecido internacionalmente e o seu estilo afirmou-se plenamente num contexto de independência em relação às incursões plásticas contemporâneas. Assim, discreta e obstinadamente, Vieira da Silva prosseguiu a sua reflexão sobre os valores da pintura, em que a cor, a mancha, o grafismo e a luz intervêm em variações plásticas e existenciais e que resulta num original e pessoalíssimo tratamento do espaço. O referente da sua pintura continua a ser o espaço, paisagens urbanas, arquitecturas, estruturas, em variações mais ou menos complexas, mais ou menos densas, ao sabor das suas incertezas. O percurso é feito em várias frentes, com um tempo próprio de uma partitura musical. Até ao fim, as referências plásticas e temáticas tornam-se menos evidentes, recordadas e reinventadas pontualmente. Estruturas urbanas, lugares imaginários revelam uma exploração dos valores da luz, acompanhada por inquietudes e irresoluções. Nas pinturas da maturidade, o espaço perdeu a sua unidade e fragmentou-se em múltiplas direcções. Depois da complexificação das suas pesquisas dos anos de 1970, começa a sobressair uma crescente depuração plástica. A pintura dos últimos anos foi marcada pela expressão física de um estado interior, está saturada das suas angústias e tende para o espiritualismo, a cor transformou-se e torna-se luz. A pintura de Vieira foi sempre um diálogo existencial e transformou-se nos últimos anos numa pesquisa espiritual sobre a perda e a morte de Arpad, o confronto da vida sem ele e a sua própria despedida. Foi através da pintura que continuou o diálogo entre a construção sensível do espaço e as suas memórias e reflexões existenciais. Ponto a ponto, quadro a quadro, Vieira da Silva teceu uma vida que se confunde com a pintura. "A minha pintura? Nunca senti necessidade de definição daquilo que pinto. Mas tenho pensado nisso… É difícil responder, é preciso quase falar da minha vida toda, escrevê-la…”  

Marina Bairrão Ruivo
Directora da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva

  O texto aqui apresentado encontra-se desenvolvido nos textos "Vieira da Silva – O espaço e outros enigmas, grandes obras em grandes colecções” e "Vieira da Silva, agora”, publicados nos catálogos com o mesmo nome em 2012.
  Ao casar com Arpad Szenes, Maria Helena Vieira da Silva perdeu a nacionalidade portuguesa, à face do antigo Código Civil, tornando-se cidadã húngara (por força do disposto no nº4 do artigo 22º do Código Civil de 1867). Como o casamento civil não foi averbado na sua certidão de nascimento, para as autoridades portuguesas, Vieira continuava a ser portuguesa e solteira.
  Igreja de São Sebastião da Pedreira, Lisboa, a 15 de Novembro de 1939.
  Não tendo sido cumprida tal formalidade, Maria Helena continuaria a ser portuguesa perante as autoridades nacionais às quais fosse presente o referido documento.
  Só em 1952 foi enviado ao conservador da Conservatória dos Registos Centrais de Lisboa pelo advogado-procurador de Maria Helena Vieira da Silva, António Homem Cardoso, um requerimento para readquirir a nacionalidade portuguesa. O despacho do Ministério da Justiça de 27 de Fevereiro de 1952 que lhe nega o pedido, diz que a nacionalidade só poderia ser readquirida (nº4 do art. 22º do Código Civil) se duas condições se verificassem: o casamento estar dissolvido e a mulher estabelecer domicílio em Portugal. "Ora, na hipótese não se verifica qualquer das condições aludidas, pelo que não pode a requerente readquirir, como pretende, a nacionalidade portuguesa, salvo por meio de naturalização.” Em Maio de 1956, Maria Helena e Arpad são naturalizados franceses.
  Procº Evian, 36,1; procº RC 779, Arquivo Histórico MNE.
  Nelson Aguilar, Luciene Lehmkuhl, Valéria Lamego, Paulo Herkenhoff e Raquel Henriques da Silva, em particular.
  Raquel Henriques da Silva, "Vieira da Silva, os desastres de guerra”, in Longos dias têm cem anos. Vieira da Silva: um olhar contemporâneo. Actas do colóquio internacional. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2009, pp.33-44.
  Paulo Herkenhoff, Vieira da Silva / Arpad Szenes: rupturas do espaço na arte brasileira. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2011.
  Entrevista com Maria João Avillez, Expresso (25 Julho 1981), p.24R.
  Idem, p.20R.