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Notícias 17 Dez 2020 Os desafios de Gaia, uma cidade educadora Filinto Lima e Joaquim Azevedo foram os convidados desta sessão
Educação e Justiça Social. Este foi o mote para mais uma sessão do ciclo «Gaia Somos Todos». A crescente responsabilização dos municípios na educação dos cidadãos obrigou à reflexão e definição de estratégias e eixos fundamentais à atuação, na conceção de medidas e políticas empreendedoras e orientadas para a criação de condições adequadas a um crescimento saudável das crianças e jovens e dos seus responsáveis. Isso traduz-se num esforço organizado e num trabalho em rede no sentido de construir uma sociedade do conhecimento, movida por uma cidadania esclarecida e preparada para os desafios decorrentes de momentos tão imprevisíveis como aquele que hoje atravessamos. "Hoje, é na justiça social que muitos desafios são lançados. Hoje, somos interpelados por perguntas tão simples como ‘terá a escola digital, consequências no aprofundamento das desigualdades?’”, explicou Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Gaia. 

Na construção de Gaia como cidade educadora, muitos são os projetos que merecem um grande destaque. O Município, através do GAIAaprende+, concebeu um programa educativo sustentável, integrador e sistémico, desenhado a nível municipal, assente num modelo que tem como referencial garantir a qualidade pedagógica e assegurar oportunidades de aprendizagem educativa nos tempos não-letivos a todas as crianças do pré-escolar e alunos do 1º ciclo do ensino básico da rede pública de Gaia. Por sua vez, o programa GAIAaprende+i (inclusão) nasceu do princípio de que o município tem o dever de encontrar estratégias que facilitem e promovam uma efetiva mudança social uma vez que todos devem ter igual nível de dignidade e de oportunidades na vida, independentemente da condição física e intelectual. Com estas e outras medidas, a educação sempre foi assumida como um tema basilar da coesão social. 

Joaquim Azevedo é professor catedrático e presidente da Fundação Manuel Leão. "É das pessoas que mais sabe e mais conhece a educação desde há muitos anos. É uma pessoa absolutamente inspiradora e que hoje cumpre este desafio de nos ajudar a refletir sobre todos os impactos e como é que, à escala do nosso município, que tem pela frente o desafio da descentralização, podemos fazer, como fazer e como ajudar a manter a escola como elemento estruturante da nossa vida coletiva”, explicou Eduardo Vítor Rodrigues.

Como é que podemos ter uma sociedade com mais justiça social que tanto desejamos, começou por questionar Joaquim Azevedo. "Hoje, temos uma escola que acolhe todos, que criou várias possibilidades de continuação de estudos, criou um ensino superior alargado. Hoje, temos uma população que acede à escola e que tem um tratamento diferente. Hoje, se podemos afirmar que Portugal é um país mais justo e democrático, a escola tem um papel fundamental na construção dessa democracia e justiça social”, afirmou o docente, para quem "devemos estar orgulhosos com tudo o que fomos capazes de alcançar”. Pelo seu trabalho permanente com as escolas e com os professores, Joaquim Azevedo tem consciência de que a heterogeneidade, fruto da abertura da escola em termos democráticos e justos, ainda é entendida, muitas vezes, como um problema. "Temos de lidar com uma população muito heterogénea e isso é muito difícil porque não se consegue o número de alunos por turma, além das condições que existem e da pouca flexibilidade curricular”, descreveu. Com isto, deparamo-nos com uma escola com dificuldades em lidar com a heterogeneidade. Surge, assim, um grande desafio e uma "grande oportunidade para a educação porque temos de saber lidar com todos, em particular com os que estão mais frágeis na escola”. Esta realidade é particularmente clara em escolas situadas em contextos mais pobres das cidades. Mas o trabalho continua a ser feito, para contrariar estas tendências, verificando-se uma expressiva redução do abandono escolar precoce nos últimos anos, embora haja uma franja de cerca de 15% de cidadãos portugueses que acaba por abandonar a escola, "muitas vezes depois de situações de profunda injustiça que sofrem”, partilhou o responsável. Para contornar esta dificuldade, Joaquim Azevedo defende uma maior flexibilidade curricular para estes alunos. Reprovar alunos consecutivamente nos mesmos anos de escolaridade também não pode ser solução. "Tem de haver outras condições de praticar justiça em termos escolares. Isso seria muito benéfico para o nosso sistema educativo”, afiançou. A heterogeneidade deveria conduzir a uma sociedade menos elitista, mais justa e isso é possível. 

Para Eduardo Vítor Rodrigues, a presença de Filinto Lima, diretor do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos e presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, "ajuda-nos a ter uma visão mais próxima dos problemas e desafios das escolas”. Com o término do primeiro período escolar, importa fazer um balanço. "64 dias de aulas depois de estarmos meio ano em casa sem contacto direto com professores, funcionários e colegas, deixo uma nota muito positiva em relação à forma como correu este período em Gaia e no país, ao contrário de expectativas de algumas pessoas. Enalteço o trabalho dos diretores que criaram regras e procedimentos que foram respeitados em todo o contexto de escola”, partilhou Filinto Lima. Recordando a intervenção de Joaquim Azevedo, o presidente da ANDAEP não nega que a atual situação pandémica acentuou as desigualdades, "não só porque muitos alunos não tinham computador, mas de outras formas também”. Em nome dos 18 diretores do concelho, Filinto Lima deixou um agradecimento à autarquia: "a Câmara de Gaia apoiou bastante as famílias, sobretudo as mais carenciadas, e a justiça social fez-se neste concelho”. 

Filinto Lima destacou, ainda, alguns dos projetos municipais, nomeadamente o GAIAaprende+(i) que, na opinião do responsável, colmata uma falha nacional. "Não percebo como é que nas pausas letivas, alunos com necessidades especificas não têm atividade. Aqui em Gaia têm, durante todo o ano, com este projeto que os acarinha e acolhe”, afirmou, deixando esta particular mensagem para alguns especialistas que estavam a acompanhar a sessão a partir do Brasil. Mencionou ainda a requalificação das escolas, em concreto da EB Costa Matos, que também criou justiça social, com melhores condições para acolher a comunidade educativa. Também se faz justiça social nas escolas "quando a autarquia coloca terapeutas nas unidades de multideficiência, isto é muito importante e positivo para todos, inclusive para os pais”. 
Para Filinto Lima, a escola em Gaia tem funcionado como um "elevador social”. Esperança foi a última palavra deixada. "Reconheço no presidente da Câmara de Gaia um amigo da educação, que apoia a escola pública e privada. Não temos medo da descentralização. Temos tido várias reuniões e será um caminho que, em comum, iremos prosseguir”, concluiu.