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Compreendi
Fragmentos de mim
Eventos 25 Jul a 30 Set 2026 Fragmentos de mim Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner
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Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner

«Na presente seleção de obras da série Fragmentos, a jovem artista Helena Bezerra propõe uma pintura na dupla vertente entre criação e investigação radical, artística e pictórica, sobre a espacialidade e os limites da representação visual.
As telas recusam narrativas explícitas, escapando aos critérios, ordenações, disposições e arranjos formulados pela tradição da reflexão estética descritiva. A proposta Fragmentos de mim, de Helena, situa-se no quadro do que podemos designar por pintura Pós-conceptual: um retorno a uma figuração abstrata nas dimensões do saber e do fazer pintura. A técnica mista da pintora opera por meio da subtração, do silêncio e da apropriação precisa de formas arquetípicas, num território predominantemente etéreo.
Por outro lado, assume a relação ordenada, a disposição e a substância que um título desta natureza sugere – uma relação entre signos, símbolos e temas utilizados na pintura. É na relação entre os signos, os sujeitos-artistas e a realidade artística que entendemos que Helena Bezerra cria um jogo visual subtil, entre o que consideramos que tradicionalmente deveria ser e a reflexão Pós-conceptual que nos propõe.
O que se testemunha nesta exposição em Gaia não é a afirmação do objeto, mas a manifestação do lugar em que ele habita. A espacialidade nas pinturas de Bezerra manifesta-se através de uma tensão controlada entre a tridimensionalidade sugerida e a noção de representação espacial sem a tradicional perspetiva geométrica linear.
Os campos cromáticos que servem de fundo – as extensões de cinzas atmosféricos, ocres e brancos em diferentes valores – deixam de ser meros cenários passivos para se tornarem protagonistas de fragmentos vistos à luz do microscópio. Contudo, estes fragmentos são de uma geometria irregular, ao contrário dos fractais da água, onde encontramos os padrões geométricos repetitivos que caracterizam a estrutura e o comportamento deste elemento na natureza.
O vazio surge nas composições como elemento catalisador; é o resultado do saber/fazer da linguagem da pintura. Gottfried Leibniz, no seu Discurso de Metafísica, estabeleceu a metáfora fundacional desta dinâmica: se espalharmos pontos aleatórios sobre o papel, existirá sempre uma linha geométrica capaz de os unir sob uma regra uniforme. Para o pintor, esta proposição determinista é uma absolvição, é o "melhor dos mundos possíveis" na criação e investigação artística. Pintar é um ato de resistência face à prevalência das novas tecnologias digitais; aqui, Helena Bezerra aproxima-se de um verdadeiro realismo direto, em contraponto ao conceito citado por Boris Groys. A internet restabelece e imortaliza a pulsão das primeiras vanguardas históricas, culminando naquilo que Boris Groys (2016) afirma ser o realismo direto.
Ao isolar blocos densos de preto profundo, planos de ocre térreo e grafismos lineares sobre o plano neutro, Helena permite-nos percorrer os intervalos. Há uma coreografia implícita na suspensão desses fragmentos geométricos e gestuais. As linhas escuras, que por vezes cruzam horizontal ou verticalmente as superfícies, agem como vetores de força que medem a imensidão do vazio, demarcando distâncias e conferindo uma cadência musical e poética a cada tela. Entre as obras de menores dimensões e as grandes telas de 90x120 cm, a coerência do ensaio visual mantém-se intocada: o espaço é o verdadeiro corpo da obra, e o vazio, a sua voz. O espetador suspende o ruído quotidiano e contempla a pintura enquanto um exercício de pura respiração visual, onde cada fragmento é um ponto de ancoragem para o pensamento figurativo abstrato.»
Filipe Rodrigues

Visitas de segunda a sexta-feira, das 9h00 às 17h00.