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Eventos 23 Fev a 26 Mai 2019 Negros Claros Espaço Corpus Christi
O artista plástico Bruno da Cunha, um nome já consensual no mundo das artes nacionais, expõe no Espaço Corpus Christi um conjunto de obras - desenho e escultura - que podem ser vistas de terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00, até ao dia 26 de maio.

A CATARSE NA OBRA
PESQUISAS EM TORNO DO SER,
DA POÉTICA
E DO SAGRADO

por Maria Joana Vilela

A exposição de Bruno da Cunha apresenta um conjunto de obras que partem de uma investigação elementar ao seu trabalho e que procura, na interioridade da sua experiência, a materialização do (re)conhecimento que faz sobre questões de raiz material, espacial e poética, onde conceitos como a ausência, a presença e o sagrado são eixos constantes. Os trabalhos derivam desse diálogo consigo mesmo, ou que é feito a partir de si com o exterior e, por isso, também da poética própria do existir, a partir daquilo que ela intrinsecamente conserva como misterioso e enigmático.
A descoberta da poesia corresponde, por assim dizer, ao encontro da vida com ela mesma, mas de um modo consciente que ilumina. E esse é um caminho sem fim, pois o trabalho com essa luz exige uma atenção laboriosa que tem obrigatoriamente de evoluir a partir de dentro, como um treinamento que, à medida que se vai tornando mais eficaz, nos acerca dela, mas dificilmente a domina, concedendo-nos apenas fugazes momentos de clara visão. Por isso, cada uma das obras da exposição, e todas elas, no seu conjunto, são instantes de um devir latente que inaugura a partilha de um caminho feito e a fazer-se pelo artista, lentamente, em direção a um lugar antecipadamente indefinível, mas ao qual se dedica com grande comprometimento.
Não consideremos, por isso, estas obras como elementos estáticos, mas antes como medidas de um silêncio que se impõe, de uma lentidão própria do carácter de interioridade do trabalho do qual derivam. Essa aparência estática das obras é conseguida pelo artista através dos materiais que usa e dos desvios que lhes confere, na procura fundamental pela leveza da matéria que é simultaneamente densa e somada aos suportes. Leveza essa que existe no trabalho de Bruno da Cunha também por consideração à harmonia própria da natureza (a uma poesia tangencial a tudo o que existe), consciente das proporções áureas e de outros acordos internos que ordenam o mundo conforme ele é e nós somos com ele. À medida que o trabalho avança, ele vai encontrando mais evidências, e somando uma melhor compreensão sobre o funcionamento das coisas.
Contudo, tal trabalho só é possível no âmbito daquela atenção. O artista explora ativamente as suas capacidades de ver, de escutar, de circundar, de sentir, para então, com as mãos que pode, dar continuidade à obra. Dizemos que ele continua a obra, ao invés de começar, na medida em que a obra é, ela mesma, o espaço da investigação a que o artista se propõe, quer do ponto de vista formal, quer conceptual. O artista, como o homem que (se) pesquisa, coloca a obra em função desse trabalho; não num sentido simbólico, da representação de algo concreto, numa lógica de substituição direta, mas através de uma integração do conceptual – do imaterial – na matéria, no gesto, no controlo da forma, nas transformações que lhe impõe - ou que lhe impõe a obra e às quais tem mesmo que ceder -, e todas essas decisões têm em vista a mesma tentativa de trazer a luz sobre algo que, assim, se manifesta através da obra.
No trabalho de Bruno da Cunha, essa dimensão imaterial, resultante da pesquisa poética e que aparece através da obra é, em certo sentido, sagrado. É algo muito próximo da imagem de uma fonte qualquer que anima o mundo e que também o ordena. Algo próximo da essência da natureza na sua totalidade. As aproximações que as obras produzem a estas dimensões interiores das coisas, manifestam-se por via das suas várias dimensões materiais e de escala. Por um lado, através do negro espesso da borracha sobre a madeira clara, cujos contrastes cromático e táctil acentuam a experiência da descoberta, mas também o gesto do fazer, a intenção de elaborar, de concretizar a obra como a soma do (re)conhecimento, como a apresentação de algo e ainda - talvez mesmo acima de tudo - como a investigação sobre os limites, da cor e da matéria em relação entre si: adição e suporte, espaço e tempo, mundo e ordem, terreno e sagrado, e sobre os movimentos possíveis no seio dessas relações. Por outro lado, o jogo dos planos, também negros, dobrando-se ou desdobrando-se em ritmos variados, onde cada visão determina uma quebra, única, exata, mas deixando, de algum modo, também indefinidas as linhas de início e de fim da cada peça. Porque é isso também o que está em causa: a amplificação dos sentidos, da significação, dos limites. Transpor, transgredir, abrir pela matéria são, em síntese, as intenções formais mais essenciais ao trabalho deste artista. Outra dimensão ainda, determinante para a relação que nós estabelecemos com as obras, e também de substancial importância para a compreensão da exposição e do projeto artístico de Cunha, é a inferência que elas exercem sobre o espaço e que molda a experiência que temos dele. O tamanho das esculturas e das esculturas-pinturas tem uma relação direta com o espaço público, sendo elaboradas a partir de uma escala exterior que, ao ser transportada para dentro do espaço da exposição aí provoca alterações determinantes - para além do preto, claro, como massa e presença que se impõe e que acentua essas alterações, mesmo que a partir daquela leveza elementar que, pelo esforço do autor, também o caracteriza. Por via desta imposição, passamos a ter com as obras uma relação que ultrapassa os termos da contemplação e que nos atira como que para dentro de uma obra maior, para um espaço entre as obras. Somos, com efeito, empurrados para essa esfera de tempo, de atenção, somos convidados a escutar, a circundar, a sentir, a ver os desvios, outras regras, outros limites. 
Ainda que o enigma do silêncio, que é também o enigma do sagrado e do poético, e dos desvios e das leis renovadas, que atravessa certamente todo o espaço expositivo, através das obras, nos possa lançar numa sensação de vazio iminente, a sensualidade e a elegância do trabalho de Bruno da Cunha, nessa depuração laboriosa a que se dedica continuadamente e que remetem as obras ao gesto mínimo, com recurso a materiais tão simples como a madeira, a borracha ou o alumínio, cujas próprias características físicas carregam a obra de curiosidades plásticas, creio que facilmente criamos afinidade com as obras; somos até, de certo modo, impelidos para elas. Embora com estranheza, há em nós uma certa disposição para a profundidade, uma curiosidade natural pelo mistério. E a catarse do mistério, que ele próprio investiga, é talvez a manifestação mais essencial da obra do artista.