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Eventos 13 Set a 17 Nov 2019 Homem Bicho / Transformação Ciclópica Casa-Museu Teixeira Lopes/Galerias Diogo de Macedo
A Casa-Museu Teixeira Lopes/Galerias Diogo de Macedo recebe, a partir de 13 de setembro (sexta-feira), uma exposição de artes plásticas da autoria de Agostinho Santos - Homem Bicho / Transformação Ciclópica - com curadoria de Albuquerque Mendes. A cerimónia de inauguração está marcada para as 18h00. A exposição fica pagtente ao público até 17 de novembro, podendo ser visitada de terça-feira a domingo, das 9h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30.




Homem-Bicho aprende a estudar em cima das árvores, e grita
(em redor da exposição de Agostinho Santos)

num habitat de cem quilómetros o animal dá voltas à sua cabeça como quem está ser perseguido e encontra e apanha quem o persegue e por medo arranca a própria cabeça pois é nela que está o inimigo que a psicanálise conseguiu colocar lá dentro, pelos ouvidos ensinam um ofício mas ele esquece tudo e começa a cantar quando lhe pedem que das suas mãos saia algum objecto útil, trata-se simplesmente de fazer objectos esquizofrénicos que destruam o que fazem no mesmo instante como se fossem um corredor muito rápido e humano a aplicar a sua velocidade a rodear uma circunferência minúscula, não interessa seres tão rápido se sais da linha que se traçou no chão e sair da linha é cair como as crianças sabem, se marcas um traço no chão o que está fora do traço é abismo e queda, e se cais estás morto e só entras no jogo a seguir, e para quem está vivo apenas uma vez o jogo a seguir não existe, e felizmente és rápido e equilibrista, parece que te põem em cima de uma corda, estás no circo e o teu território não tem sequer a dimensão de dois sapatos, tens de habitar acima do solo o que não é possível pois deixaste de ser chimpanzé há alguns anos, levantas os pés do chão, deixas os sapatos lá em baixo para enganar os inimigos, aprendes a estudar em cima das árvores, tornas-te inteligente em cima das árvores como os teus antepassados e claro estás contente, o que te importa é aperfeiçoares o grito, treinares para essa forma suicida de discurso, não grites porque o inimigo é o que mais rápido ajuda quem grita, avanço como um macaco e cada vez percebo melhor que é em cima da árvore que tens de aprender, fazer a primeira classe em cima da árvore, a segunda classe em cima da árvore, a terceira classe, estuda para louco, estuda para animal, como é difícil estudares para animal depois de tantos anos a aprender o inverso, op op e aqui vou, desço do meu território, olho para os dois lados, comparo os animais comigo, levo um espelho, vou assustando as pessoas da cidade com um único espelho, avanço como um maluco com os pés descalços em pleno centro da cidade, as pessoas a andarem de um lado para o outro e o que lhes mostro é um espelho rectangular do tamanho de uma toalha das mãos, um espelho perfeito que vou virando para cada pessoa que se cruza comigo e eles estão com medo e fingem que é de mim mas é da imagem, e quem olha directamente para o espelho acelera o passo como se o espelho os atrasasse, dizem-me qual é o caminho, subo as escadas e o médico manda-me sentar, pergunta-me a idade e a que espécie animal pertenço, répteis, mamíferos, depois os macacos estão muito próximos, se sou casado, se já tive acidentes, o que como o que fodo onde durmo quantas horas, de que forma os peritos foram importantes para a história dos entediados, nómadas, sedentários, pegam num nómada prendem-no à cadeira com cordas, choque eléctrico, impedem-no de se pôr a correr dali, desatam os nós, dizem estás livre e o animal já tem as pernas e o caminho, e tudo está disponível excepto a vontade que é o principal, e a electricidade bem dirigida já a sacou - à vontade - para fora como se fosse um órgão, atiras a excitação do louco para a mesa, ele estrebucha como um peixe, dás pancadas com o martelo, ele acaba de vez com a tua excitação, a forma médica de fazer sedentários, digo que sim, digo que estou às suas ordens, bato com os calcanhares um no outro, digoHeil Hitler, gozo com a situação, sinto que domino quem me esmaga, levanto-me, estou na vertical, fico tonto, peço uma cadeira, quase desmaio, tento de novo, outra vez na vertical, quero avançar, dou um passo, nómada por um passo, nómada por dois passos e op op caio de novo, o médico segura-me, levanta-me, dá-me beijos na testa, no cabelo como se fosse seu filho, trata-me como um animal e filho e op op um passo, dois aqui vou eu de novo sozinho, livre dos papás, um pé, outro, op op, caio outra vez, sedentário na forma como caio, preguiçoso na forma como caio, tirámos-te a excitação, deixaste de ser nómada, op, rendo-me à medicina; vão conseguir ao fim de dois anos que me mantenha em pé sozinho, um regresso à infância mas pela porta grande, pela destruição do organismo, voltar atrás mas com mais peso, com mais corpo com mais ideias, estudar muito para conseguir ficar sobre os dois pés como fizeram os nossos antepassados macacos, op op, sobre os dois pés aqui estou a jurar com a mão em cima da bíblia, juro pelo Senhor que jamais repetirei os erros dos animais, endireito as costas, ofereço-me para guiar a carroça ambulante, fico sentado e são os cavalos nómadas que se esforçam, fico sentado e vou mudando de sítio, eis o que é estudar, conduzo a carroça, paro em cada povoação, mando os que estão lá atrás destruírem tudo o que mexe, eu fico sentado porque sou o chefe do bando, não me canso, tiraram-me a autonomia para estar de pé no meio do chão - estou por isso na cadeira mas grito

do livro "animalescos” de Gonçalo M. Tavares


Verbo sem limite

A obra de Agostinho Santos já era um abate de fronteiras, uma clara insubordinação para com as formas estabelecidas. Na sua natureza, Agostinho define-se em profunda liberdade, sem obedecer senão à revelação constante do que compõe a figura nova, o objecto novo. Discutindo o mundo, seu método é o de dotar o próprio discurso de instrumentos originais, nunca vistos, que se colocam entre as imagens convencionais como signos novos, oportunidades distintas de dizer algo que ainda não foi dito. Oportunidades distintas de significar o que até então não encontrara apoio vocabular, não tinha idioma. Com a extensa e importante série Homem Bicho isto se reitera e intensifica. O abate da fronteira entre pessoa e animal é substancialmente alusão à arte como verbo sem limite, o pensamento imiscuído no mais insondável, no mais ínfimo e infinito, no último lugar de sentido. A arte de Agostinho Santos é a própria expansão do espaço, isso que a imaginação consegue relativo ao acto de transcender.
A necessidade de representar o grotesco das condutas produz o monstro que se vê. Verbo novo, por definição, cada monstro é a crítica urgente ao quanto o cidadão de hoje degenera. Agostinho Santos, que trabalha como mais ninguém no panorama português a questão das causas, propondo categoricamente uma arte ética de apelo e protesto abeira-se agora da acusação mais clara e rotunda, a de que nos desumanizamos, regredindo nos propósitos do projecto humano a uma elementaridade violenta, egoísta, onde a pulsão animal se sobrepõe a milénios de aprendizado da paz e da compaixão. Agostinho coloca a arte e o artista ao serviço. Digo assim para aludir ao quanto se compromete.
Julgávamos que as conquistas europeias, depois das piores guerras, serviriam para instalar sine die a lucidez de uma preocupação social, feita de cuidar da diferença de cada um. A perplexidade, hoje, perante a regressão insuportável nos valores solicita uma resistência brava, uma espécie de manifesto de humanidade sem reserva, uma convicção que fica à altura apenas dos mais capazes, à altura dos melhores.
Não é qualquer coisa que alguém se erga diante da miséria moral a que assistimos. Não é qualquer coisa que se mantenha a voz e não se conceda. Os bichos que aqui vemos, que são exactamente o advento do novo e terrível homem, estão expostos enquanto galeria de vergonha. Ostentação dos torpes, aqueles que desistiram de cuidar do mundo, optando pela mais predatória e cínica sobrevivência. De algum modo, Agostinho os captura. Estão na circunscrição do quadro como enclausurados. Uma jaula de vexame que os perpetua para que exista esse vocábulo pictórico, esse elemento, como dizia acima, para o discurso urgente da recuperação esperada do mundo.
Se o verbo procura superar o seu limite é porque a pessoa procura superar o seu limite. Importa que essa superação seja valentia e construção. Importa muito que se discuta sempre, que se exija o diálogo, para que às consciências não falte o que nos justifica: a educação para o outro. O diálogo educa para o outro. Assim o que Agostinho Santos faz.

Valter Hugo Mãe